6/14/2010


Sempre anoitece antes que o dia faça sentido.

Eu passo o dia recolhendo penas, uma pra cada sonho alheio pouco aproveitado. Com elas faço mais um travesseiro. E aproveito muito bem cada segundo de prazer que minha cabeça vive enquanto repousa sobre ele. Porque o terço vivido pela mente é muito mais valioso que os dois terços vividos do pescoço pra baixo.
Eu me deito com a cabeça virada para o lado. Pra encostar bem o ouvido nas penas e ouvir o que cada uma delas tem a me contar. Elas me nutrem com os restos de imaginação que seus antigos donos não consumiram e me confortam com a maciez que eles rejeitaram, aqueles ingratos. Eles nem gritam de dor quando eu as arranco. A maioria não deve nem saber que elas existem. Odeio gente que pensa com os olhos.
Eu não preciso de cobertor. Não sinto frio por dentro.
Eu não tenho hora pra acordar.
14/06/2010 mesmo.
Escrito ao som de Pure Reason Revolution – The Gloaming.mp3, sem muito propósito.

6/12/2010

(...)

Até agora eu estou conseguindo respirar.

Injetando: Boards of Canada - Chromakey Dreamcoat.mp3

6/01/2010

Fachada

Um punhado.


Dois dias atrás, eu estava dentro dela. Agora, ela está dentro da terra. E eu estou fora. Junto com ela estão um vestido preto, um colar, dois aneis – mas não eu. Eles podem, eu não. Adereços não respiram, e só quem não respira pode ser enterrado. Ela não respira.


Outro punhado.


Lúcido, não faço questão de estar. Mas estou menos alucinado que ontem à noite. E mais insensível. Os músculos do meu rosto enrijeceram, as lágrimas estiaram, as batidas do coração foram domesticadas. Meu arrependimento foi catalogado e anticorpos foram produzidos. Agora sou uma mera extensão da pá que seguro – se bem que eu, ao contrário da pá, respiro.


Mais um punhado. Minhas mãos ficam sujas.


Os olhos dela estão bem abertos. Estavam fechados, mas eu os abri. Não quero que ela os mantenha fechados por tempo suficiente para me esquecer. Não enquanto ainda estivermos cara-a-cara. Evito depositar terra sobre sua face – será a última parte que cobrirei, ou talvez nem a cubra. Posso erguer sobre ela um pequeno poço, e eu o encherei de lágrimas, saliva e sangue nos dias em que minha alma produzir esses fluidos em maior quantidade.


Começa a chover.


A chuva borra a maquiagem que fiz com tanta dedicação agora há pouco. Os remendos na pele aparecem, fulmino-os com rajadas de terra antes que me dilacerem por dentro. Os hematomas permanecem razoavelmente ocultos – nem as nuvens os querem ver. Que fiquem escondidos. Duas gotas d’água mais robustas atingem em cheio os olhos dela e escorrem pelas pálpebras inferiores, de maneira tão sugestiva que me inunda de vergonha. Reflito por alguns momentos, a contragosto.


Preparo um punhado especialmente grande para o rosto dela.


Ouço um grito. Não, o canto de um pássaro. Não, uma sirene. Não, um grito. Fico atordoado, mas ela sequer pisca, como se não o tivesse escutado. Não acho justo. O espaço vizinho a seus ouvidos já está preenchido, deve ser por isso. Recolho a pá jogada no chão, entro no buraco e preparo-me para esvaziá-lo mais uma vez, mas o barulho cessa assim que finco a pá na terra ainda fofa. Subo de volta e olho para o local de onde acredito ter vindo o som. Nossa casa? Não, mais longe. A rua do outro lado. Entro pela porta dos fundos, atravesso a sala, subo as escadas até nosso quarto, abro a janela e por ela passo a cabeça; na rua, vejo apenas uma nostálgica luz vermelha – deitada sobre o teto de um veículo. Uma ambulância?, presumo; e se estiver certo, serei obrigado a dispensá-la, pois chegou tarde demais. Aos poucos a chuva enfraquece e minha visão se desembaça, permitindo-me observar o veículo com mais detalhes. É negro, deve ser um carro funerário. Dois vultos, também negros, saem dele.


Agarro firmemente a pá, agora com ambas as mãos.


São dois e são da cor da morte. Não há outra explicação: vieram recolher o espírito dela, ainda incapaz de se desprender do invólucro corporal, mesmo este estando gravemente danificado. Noto que se dirigem à porta da frente da minha residência; momentos depois, ouço o gemido da campainha. Minhas suspeitas estavam certas. Antes de ir atendê-los, pergunto-me: por que vieram em dupla? São necessários dois funcionários do além para remover a alma de dentro de um cadáver? Ou talvez um deles seja na verdade um guia, incumbido de conduzí-la ao destino que merece, seja ele qual for? Não. Nenhuma dessas possibilidades me parece tão plausível quanto a de que a minha hora, assim como a dela, também chegou. Um deles cuidará dela, o outro de mim.


Desço as escadas, animado com a possibilidade.


Já não carrego a pá com a firmeza de antes. Meus músculos relaxam, pelo menos do pescoço para baixo. Ao longo da noite, a vontade de dar-me o mesmo destino que dei a ela crescera de tão mínima quanto meu arrependimento a mais avassaladora que minha tristeza. Cogitei o suicídio, mas minha coragem estava esgotada. Não tinha inimigos, não estava doente e não havia envelhecido o bastante. Só ela era capaz de tirar minha vida – ambos sabíamos que não morreríamos juntos. Um dos dois iria antes, e quem ficasse estaria condenado a ser escravo da covardia e da solidão até perder a sanidade. Mas o mundo espiritual, sensibilizado com minha trágica sina, resolveu intervir em minha vida, a de um mortal, e conceder-me o direito de acompanhar minha amada, uma morta, na jornada rumo à imortalidade. Ou ao menos é o que parece.


Abro as portas.


Um dos dois vultos está recostado na varanda, o outro diante de mim. Olho para sua face, sorrio e esboço um gesto de agradecimento, mas ele, mais rápido, agarra minhas mãos com as suas e, em um tom de voz gentil apesar de frio, balbucia algo. Sim, sei que minha jornada irá começar, e estou pronto. Tento acenar para o outro para avisar que ela está lá dentro e também está preparada, mas não consigo: algo mantém meus pulsos juntos. Ele descruza os braços e entra na sala sem pedir licença, enquanto seu companheiro me puxa para o carro sem resquício algum da delicadeza inicial.


Para de chover.


Em uma coisa eu estava certo: serei guiado. Mas não para o paraíso, e sim para o purgatório. Os anjos do céu são da cor do dia, não da noite. E não se chega ao céu de carro.


12/03/2010

Música correspondente: Finch - Bitemarks And Bloodstains.mp3