Sempre anoitece antes que o dia faça sentido.
Eu passo o dia recolhendo penas, uma pra cada sonho alheio pouco aproveitado. Com elas faço mais um travesseiro. E aproveito muito bem cada segundo de prazer que minha cabeça vive enquanto repousa sobre ele. Porque o terço vivido pela mente é muito mais valioso que os dois terços vividos do pescoço pra baixo.
Eu me deito com a cabeça virada para o lado. Pra encostar bem o ouvido nas penas e ouvir o que cada uma delas tem a me contar. Elas me nutrem com os restos de imaginação que seus antigos donos não consumiram e me confortam com a maciez que eles rejeitaram, aqueles ingratos. Eles nem gritam de dor quando eu as arranco. A maioria não deve nem saber que elas existem. Odeio gente que pensa com os olhos.
Eu não preciso de cobertor. Não sinto frio por dentro.
Eu não tenho hora pra acordar.
Escrito ao som de Pure Reason Revolution – The Gloaming.mp3 , sem muito propósito.
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