Prefácio:
Leia o texto / em voz alta, / em blocos de / quatro em quatro / sílabas, e / pondo sempre / força extra / na terceira.
Do contrário, / perde a graça.
Ergo o braço,
puxo a corda. Um barulho, feito o silvo de um demônio, toma conta dos ouvidos dos
sentados, dos em pé, do cobrador, do motorista. Tudo para; só a porta continua
em movimento, mas um outro movimento, mezzo
giro, mezzo dobra, pra sair do meu caminho.
Com um salto, venço a escada, aterrisso na calçada. Estou fora do transporte coletivo.
Minha casa mais à frente – a cem metros, cento e vinte, cento e pouco. Tudo
escuro, breu danado, nem os postes funcionam nessa rua. Madrugada não é hora de
voltar a pé pra casa, mas nem ligo; que bandido vai querer mexer comigo? Minhas
roupas são surradas, desbotadas; minha coxa não ostenta nem volume de carteira
nem de iPhone. Mas divago.
Vou andando rua
abaixo. Mão esquerda jaz no bolso; mão direita faz um gancho com dois dedos – quase
roxos, tal o peso da mochila que carregam. Dentro dela, só cadernos e um estojo.
Mas, uma vez mais, divago.
De repente, vejo
um vulto do outro lado, se movendo a passos longos, apressados. Sinto cheiro de
suor e vibrações de pele tensas. Cada passo que esse vulto dá no escuro diz bem
alto, mas bem alto, quase aos gritos: DESESPERO. Sigo o vulto; a princípio com
os olhos, só os olhos. Nesse escuro, mesmo nele, dá pra ver que esse contorno é
feminino. Bem suave, bem moldado, bem dotado, bem meu tipo.
Que beleza.
Sorrateiro, cruzo
a faixa de pedestres, com cuidado pra deixar meus passos surdos, delicados, como
a sola da sandália de algum anjo. Fico atento a cada espasmo muscular da moça à
frente (sim, da moça), me esbaldando – quase num pequeno orgasmo – por saber,
por ter certeza que ela não me viu ainda. Chego perto, paro um pouco, ela se a
fasta, chego perto, paro um pouco, ela se afasta. Fico nesse vai-e-vem cadenciado
por dez metros, quinze metros, vinte metros, poucos metros. Minha mente, embora
alerta, se diverte divagando mais que nunca. Sim, divago.
Sim, divago, e dessa
vez é voluntário.
Quem é ela? Pra
que serve? Quais histórias ela rende? Que aventura vou viver à custa dela? Que
segredos ela guarda? De repente pode ser uma vampira, e eu que sou o perseguido
nessa história. Pode ser que eu tenha sangue do melhor e do mais raro. Pode ser
que eu seja a janta e ela esteja à minha espreita, se fazendo de pedestre distraída
só pra ver se eu sou esperto e tento a fuga antes do bote inevitável. Ou ainda,
vai saber se ela não veio de um planeta bem distante? De um planeta bem
bizarro, onde as pessoas se parecem com terráqueos mas respiram com as unhas, têm um
par de nadadeiras escondido em algum canto, soltam laser colorido pelo umbigo, falam
línguas que não usam consoantes, se embebedam com petróleo, gargarejam cianureto
e aprenderam teleporte pra explorar os outros mundos e achar graça nos costumes
de outras raças, todas elas primitivas aos seus olhos. Vinte olhos.
É, divago.
Ou será que não
divago?
Minha casa se
aproxima, as costas dela se aproximam. Já pressinto que delícia vai ser quando
eu colocar a mão no ombro da mulher e disser “oi” ou qualquer coisa desse tipo.
Imagina o coração acelerando, de tal forma que as batidas viram rufo de tambor
debaixo d’água.
Vai ser foda.
Já está quase no
momento do contato, mas ainda penso, penso em mil maneiras de essa história ter
seu rumo. Por exemplo (e um exemplo até bastante realista), imagina se ela
pensa se tratar de algum tarado? Poucas coisas são tão lindas e tão feias quanto
essa: o prelúdio de um estupro? Aliás, se quer saber, por mais que o antes me
entretenha muito mais do que o durante, de repente eu posso até lhe estuprar
mesmo. Só depende do quão fortes são os tapas que eu levar, do quão agudos são
os gritos e os pedidos, os perdidos, de socorro. Qualquer coisa, se preciso, tem
um beco abandonado a três esquinas de distância de onde eu moro. Não divago, isso
é fato.
Eis que a vítima
se afasta – pois, imerso em pensamentos, acabei por vacilar e comecei a caminhar
mais devagar do que devia. Dou três saltos pra me pôr de volta ao posto de
vigia: outra vez, as costas dela ao meu alcance; ao alcance dos meus braços. Quer
saber? Já está na hora. Vamos ver no que vai dar essa novela. Vou pegar pelo
pescoço; que se dane. Se ela grita, eu dou-lhe um soco, um tapa, um beijo, qualquer
coisa. Vamos lá. Ou vai ou racha.
Não, não vamos.
Um segundo, talvez
menos, antes disso, bem na hora mais imprópria, ela fez um ligeiríssimo desvio,
entrou num beco, enfiou a mão na bolsa, vaculhou e tateou até seu tato deparar-se
com a chave. Sim, a chave. De uma porta que ela abriu num fragmento desprezível
de segundo, se enfiou pra dentro de sei lá pra onde a porta leva, segurou a maçaneta
e, com um puta de um puxão, um safanão, fechou a porta. O barulho, quem dormia
nas residências vizinhas, depois dele, ou se acordou ou enfartou do miocárdio.
Tudo isso, essa novela, esse compêndio de pequenos movimentos que podia ser
roteiro de algum curta por aí? Foi tudo assim, piscou-passou, foi num instante,
só um puto de um instante – enquanto eu, burro que só eu, me distraía. Divagava.
Mas que merda de
anticlímax, não concorda? E o pior é que a história, a essa altura, nem bem
tinha começado. Bem, agora não sou louco de tocar a campainha dessa casa onde a
tal moça se enfiou com tanta pressa; ademais, o que eu diria, mesmo que, por um
acaso, conseguisse ver de novo a dita-cuja?
“Oi, eu tava te
seguindo e não deu tempo de comer seu cu”?
“Será que você
pode dar mais uma caminhada pelo bairro, pra eu brincar de adivinhar o que
diabos você tem (ou pode ter) de interessante, além da bela silhueta”?
“Oi, quer ser o
meu mistério?”?
Não, não rola. Essa
história já está morta. Sim, falhei, e enquanto volto, a passos lentos
e frustrados, para casa, só consigo
pensar em cinco palavras, que resumem muito bem o que essa noite me ensinou
sobre o Universo, a vida, o amor e mais trocentas outras coisas:
“Mas que puta mundo
chato.”
A ideia existe há uns 30 bilhões de anos, mas o texto é de 11/07/2013.
Música relacionada: The Faint - The Geeks Were Right.mp3