11/14/2010

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Se ficar entediado, sonhe.
Se não puder sonhar, escreva.
Se não conseguir escrever, imagine.
Se não der pra imaginar, morra.

11/04/2010

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Cutuquei um espírito. Era macio, parecia uma bochecha.

9/17/2010

Pathos

Nem toda ação precisa de motivo.
Nem tudo deve ser justificado.
A vida é apenas um aglomerado
De impulsos, ímpetos, padrões de ação intuitivos.

Admita, você já viu isso antes.
O mesmo ator, movido pelo ódio
Protagoniza o mesmo episódio
E tem o mesmo fim que cada um dos figurantes.

Mas quem disse que é esse o meu papel?
Não sou vilão; muito pelo contrário.
Meu sentimento é bem mais arbitrário
Mais amigável, mais acolhedor, menos cruel.

Meu amor pode ser improvisado
Só preciso que aceites aceitá-lo
E o desfecho, tentes adivinhá-lo
Ainda que nenhum de nós dois o tenha ensaiado.

11/09/2010
Porque a gente escreve cada merda quando quer falar de amor...

6/14/2010


Sempre anoitece antes que o dia faça sentido.

Eu passo o dia recolhendo penas, uma pra cada sonho alheio pouco aproveitado. Com elas faço mais um travesseiro. E aproveito muito bem cada segundo de prazer que minha cabeça vive enquanto repousa sobre ele. Porque o terço vivido pela mente é muito mais valioso que os dois terços vividos do pescoço pra baixo.
Eu me deito com a cabeça virada para o lado. Pra encostar bem o ouvido nas penas e ouvir o que cada uma delas tem a me contar. Elas me nutrem com os restos de imaginação que seus antigos donos não consumiram e me confortam com a maciez que eles rejeitaram, aqueles ingratos. Eles nem gritam de dor quando eu as arranco. A maioria não deve nem saber que elas existem. Odeio gente que pensa com os olhos.
Eu não preciso de cobertor. Não sinto frio por dentro.
Eu não tenho hora pra acordar.
14/06/2010 mesmo.
Escrito ao som de Pure Reason Revolution – The Gloaming.mp3, sem muito propósito.

6/12/2010

(...)

Até agora eu estou conseguindo respirar.

Injetando: Boards of Canada - Chromakey Dreamcoat.mp3

6/01/2010

Fachada

Um punhado.


Dois dias atrás, eu estava dentro dela. Agora, ela está dentro da terra. E eu estou fora. Junto com ela estão um vestido preto, um colar, dois aneis – mas não eu. Eles podem, eu não. Adereços não respiram, e só quem não respira pode ser enterrado. Ela não respira.


Outro punhado.


Lúcido, não faço questão de estar. Mas estou menos alucinado que ontem à noite. E mais insensível. Os músculos do meu rosto enrijeceram, as lágrimas estiaram, as batidas do coração foram domesticadas. Meu arrependimento foi catalogado e anticorpos foram produzidos. Agora sou uma mera extensão da pá que seguro – se bem que eu, ao contrário da pá, respiro.


Mais um punhado. Minhas mãos ficam sujas.


Os olhos dela estão bem abertos. Estavam fechados, mas eu os abri. Não quero que ela os mantenha fechados por tempo suficiente para me esquecer. Não enquanto ainda estivermos cara-a-cara. Evito depositar terra sobre sua face – será a última parte que cobrirei, ou talvez nem a cubra. Posso erguer sobre ela um pequeno poço, e eu o encherei de lágrimas, saliva e sangue nos dias em que minha alma produzir esses fluidos em maior quantidade.


Começa a chover.


A chuva borra a maquiagem que fiz com tanta dedicação agora há pouco. Os remendos na pele aparecem, fulmino-os com rajadas de terra antes que me dilacerem por dentro. Os hematomas permanecem razoavelmente ocultos – nem as nuvens os querem ver. Que fiquem escondidos. Duas gotas d’água mais robustas atingem em cheio os olhos dela e escorrem pelas pálpebras inferiores, de maneira tão sugestiva que me inunda de vergonha. Reflito por alguns momentos, a contragosto.


Preparo um punhado especialmente grande para o rosto dela.


Ouço um grito. Não, o canto de um pássaro. Não, uma sirene. Não, um grito. Fico atordoado, mas ela sequer pisca, como se não o tivesse escutado. Não acho justo. O espaço vizinho a seus ouvidos já está preenchido, deve ser por isso. Recolho a pá jogada no chão, entro no buraco e preparo-me para esvaziá-lo mais uma vez, mas o barulho cessa assim que finco a pá na terra ainda fofa. Subo de volta e olho para o local de onde acredito ter vindo o som. Nossa casa? Não, mais longe. A rua do outro lado. Entro pela porta dos fundos, atravesso a sala, subo as escadas até nosso quarto, abro a janela e por ela passo a cabeça; na rua, vejo apenas uma nostálgica luz vermelha – deitada sobre o teto de um veículo. Uma ambulância?, presumo; e se estiver certo, serei obrigado a dispensá-la, pois chegou tarde demais. Aos poucos a chuva enfraquece e minha visão se desembaça, permitindo-me observar o veículo com mais detalhes. É negro, deve ser um carro funerário. Dois vultos, também negros, saem dele.


Agarro firmemente a pá, agora com ambas as mãos.


São dois e são da cor da morte. Não há outra explicação: vieram recolher o espírito dela, ainda incapaz de se desprender do invólucro corporal, mesmo este estando gravemente danificado. Noto que se dirigem à porta da frente da minha residência; momentos depois, ouço o gemido da campainha. Minhas suspeitas estavam certas. Antes de ir atendê-los, pergunto-me: por que vieram em dupla? São necessários dois funcionários do além para remover a alma de dentro de um cadáver? Ou talvez um deles seja na verdade um guia, incumbido de conduzí-la ao destino que merece, seja ele qual for? Não. Nenhuma dessas possibilidades me parece tão plausível quanto a de que a minha hora, assim como a dela, também chegou. Um deles cuidará dela, o outro de mim.


Desço as escadas, animado com a possibilidade.


Já não carrego a pá com a firmeza de antes. Meus músculos relaxam, pelo menos do pescoço para baixo. Ao longo da noite, a vontade de dar-me o mesmo destino que dei a ela crescera de tão mínima quanto meu arrependimento a mais avassaladora que minha tristeza. Cogitei o suicídio, mas minha coragem estava esgotada. Não tinha inimigos, não estava doente e não havia envelhecido o bastante. Só ela era capaz de tirar minha vida – ambos sabíamos que não morreríamos juntos. Um dos dois iria antes, e quem ficasse estaria condenado a ser escravo da covardia e da solidão até perder a sanidade. Mas o mundo espiritual, sensibilizado com minha trágica sina, resolveu intervir em minha vida, a de um mortal, e conceder-me o direito de acompanhar minha amada, uma morta, na jornada rumo à imortalidade. Ou ao menos é o que parece.


Abro as portas.


Um dos dois vultos está recostado na varanda, o outro diante de mim. Olho para sua face, sorrio e esboço um gesto de agradecimento, mas ele, mais rápido, agarra minhas mãos com as suas e, em um tom de voz gentil apesar de frio, balbucia algo. Sim, sei que minha jornada irá começar, e estou pronto. Tento acenar para o outro para avisar que ela está lá dentro e também está preparada, mas não consigo: algo mantém meus pulsos juntos. Ele descruza os braços e entra na sala sem pedir licença, enquanto seu companheiro me puxa para o carro sem resquício algum da delicadeza inicial.


Para de chover.


Em uma coisa eu estava certo: serei guiado. Mas não para o paraíso, e sim para o purgatório. Os anjos do céu são da cor do dia, não da noite. E não se chega ao céu de carro.


12/03/2010

Música correspondente: Finch - Bitemarks And Bloodstains.mp3

5/31/2010

(...)

Sabe o que vem depois da morte? Tudo que você sonhou enquanto vivia. Tudo.





Tá, talvez não. Mas se isso fosse verdade e desse pra comprovar... pense no nightmare fuel.

5/30/2010

Pausa

Nada acontece no meu mundo por enquanto.

Estou preso em uma pequena área delimitada por seis barreiras físicas, imagine seis paredes, mas não sei se preso é a palavra certa, pois não saio daqui apenas por não querer. Algo nesse marasmo todo me retém. De certa forma, vejo-o como algo hipnótico, algo capaz de me tornar dependente químico. A cada segundo que passa despercebido aqui dentro, o conforto que sinto aumenta e ao mesmo tempo a vontade de voltar ao mundo exterior diminui. Não sei se conseguirei me livrar desse vício. Respirar reticências é muito bom.

Nada se torna cada vez mais perceptível.

Penso ouvir o tiquetaque de um relógio. Sinal de que ainda não cheguei ao estado de completa inércia criativa que almejo. Busco-o, pois criar, imagine imaginar, o tempo todo cansa. Já não criar por um momento sequer faz eu me sentir inútil. Quer dizer, isso no mundo lá fora. Aqui dentro, e só aqui dentro, sou capaz de tranquilizar meu espírito a ponto de alcançar um status que denomino apneia criativa. O ócio total não me causa remorso enquanto estou imerso neste completo e absoluto...

...abro um pouco os olhos.

As paredes são brancas. Só percebi agora.

Branco, falemos dele. Pensa ter provado do Vazio em sua forma mais pura, mas se engana, quem alega que a mente fica branca quando não se pensa em nada. Ora, “deu branco” é uma expressão tão erroneamente interpretada que sinto até certa pena dela. A brancura no mundo material não é ausência de cor, sabe-se; é a junção de todas as cores em um único espectro luminoso. Pois bem: de forma semelhante, a brancura que acomete os pensamentos não sinaliza a ausência deles, a falta da informação que deveria estar lá, engatilhada, pronta para ser usada na hora oportuna, quase concreta de tão compreensível. Pelo contrário: age como vírus, infiltra-se nas idéias e as corrompe, molda-as à sua imagem e semelhança, transforma-as em clones seus até que sua forma seja a única coisa restante na infeliz cabeça de quem a seu ataque se deixa sucumbir. Isso está longe de ser um verdadeiro Vazio criativo. Quando as idéias, de fato, fogem da cabeça de um indivíduo pensante, resta-lhe na verdade a cor invisível, a cor transparente, desculpe, mas dessa vez não posso mandar você imaginar nada, pois tal cor é exótica demais para ser associada a algo compreensível – é uma das poucas coisas sem sinônimo ou equivalente no mundo material. E o privilégio de vislumbrá-la é para poucos.

Nada continua acontecendo vigorosamente ao meu redor.

Se as paredes são brancas, são mesmo intransponíveis, constato. Ou ao menos seriam para meu eu real, caso ele quisesse sair do cubículo que o encerra neste inexato momento. Porém, como disse antes, eu seria capaz de deixar este lugar quando bem entendesse. Meu alter-ego imaginário viaja para além das fronteiras da mais selvagem das imaginações, mas no momento nem ele nem eu sentimos vontade de explorar o universo de possibilidades que parece só nós dois vemos. Sinto uma paz interior grande demais para se deixar interromper por uma reles sede de aventura. Paz interior...

...que, não muito depois deste meu último pensamento, é interrompida de maneira suavemente brusca.

Ouço passos vindo na minha direção. Não penso ouvir, ouço. Abro o restante dos meus olhos e espio os arredores daquilo que até momentos atrás era o sagrado templo onde eu venerava o Vazio, meu único deus. Sim, meu templo foi maculado. Maculado por um vulto. Um vulto que cresce à minha direita, primeiro em tamanho, depois em nitidez. Não demoro muito para conseguir identificar os detalhes e reconhecê-lo: é a mulher. A mesma que vem todos os dias – sim, dias; por alguma razão sei exatamente os intervalos de tempo entre suas visitas... talvez o som de relógio que vez ou outra ouço seja real – para tirar-me de meu sublime sono intelectual, imagine o que você leu até agora, e executar a mesma tarefa sumária, cujo intuito ainda não compreendi. Não gosto dela.

A herege, vestida em trajes brancos nem um pouco condizentes com o ato profano que acaba de realizar, diz algo, o mesmo algo diário ao qual já me acostumei, mesmo sua voz sendo grossa e abafada a ponto de ininteligível, agarra meu braço esquerdo, até então inerte, estirado e rente ao corpo, e com ele faz algo ainda incógnito para mim, pois quando tento erguer um pouco a cabeça para ver o que é, sinto-me tonto e desisto. A única pista disponível para tirar qualquer conclusão, uma fina dor na fronteira entre braço e antebraço. Insuficiente.

Feito o serviço, ela profere mais algumas palavras disformes e ineficazes, ingênua é se crê que eu os entendo, e pouco a pouco vai desaparecendo. Deve ter ido embora. Poucos segundos ou minutos ou horas depois, imagine a medida de tempo que lhe parecer mais adequada, torno ao magnífico estado de espírito em que me encontrava antes da brusca interrupção daquele vulto de voz gutural. Nada volta a permear o espaço à minha volta. E tudo está bem outra vez.

19/11/2009
Música correspondente: Autechre - 444.mp3

5/27/2010

(...)

Tem uma cruz ali em cima queimando meus neurônios.

Ela exorciza meus demônios.


Leia-se: não tenho o que fazer e não tenho o que escrever. O tédio me deixa pseudo, véio. Muito pseudo.


Injetando: Radiohead - Where I End And You Begin. (The Sky Is Falling In.).mp3

5/26/2010

Explode o ovo... digo, nasce o blog.

OLD
Esse não é o primeiro post, mas é como se fosse. Bom dia, seres humanos.