11/27/2011
10/13/2011
...
"The thought of losing you is not an option."
Pra mim, acho que ficaria mais adequado assim:
"The thought of losing you is now an option."
9/30/2011
9/22/2011
Investimento
Chegamos.
Durante uma primeira olhada ao redor, o que menos enxergo são câmeras. Até vejo algumas, mas são em número bem menor que nos meus sonhos de antigamente. Prefiro acreditar que a realidade é uma adaptação não muito literal deles, e não o contrário. E até já sei qual a diferença crucial entre as duas versões da história: na real, eu não vou mais interpretar uma menininha deslumbrada com flashes, beijos técnicos e cachês. Hora de trilhar novos caminhos na minha carreira, se eu quiser que ela comece – vai doer, vai ser nojento, vai me traumatizar e me encher de desgosto pela vida, eu sei, mas pelo menos eu não vou cair no ostracismo.
Embora as câmeras sejam escassas, ao meu redor há um verdadeiro oceano de figurantes. Não devem ter sido bem treinados, pois todos olham para mim sem a menor discrição, como se cada um enquadrasse um centímetro quadrado da minha pele. Minha naturalidade, tantas vezes ensaiada, se esvanece perante esse excesso de foco. Minhas bochechas perdem a coloração sépia, que também ensaiei, e assumem o tom de vermelho mais frágil e desprotegido possível. Essa mudança de cor também foi treinada, mas eu pretendia usá-la numa cena posterior a essa, quando seria mais adequada. Sem alternativa, cubro a face com as mãos e corro em busca de um ponto cego.
Deixando os figurantes para trás, entro numa sala qualquer. Está relativamente vazia de gente, mas lotada de objetos de cena, todos grandes, grossos, assustadores ou tudo isso ao mesmo tempo. Aprendo: em Hollywood e derivados, absolutamente tudo é masturbatório. Tenho me lembrar disso quando for escrever o argumento dos meus próximos sonhos, se é que ainda terei algum.
Reparo que há um balcão à minha esquerda, colado na parede oposta à escada; atrás dele está a única peça humana na composição dessa mise en scène grotesca. A secretária do chefe da matilha, uma senhora de meia-idade, de aparência inofensiva – aliás, tão inofensiva que destoa do cenário ao redor como um psicanalista num confessionário. Parcamente camuflada atrás de uma ampla folha de jornal ostentada como um escudo de papel reciclável, ela filma todos os meus movimentos com o olhar, sem piscar, enquanto atravesso a sala em plano-sequência até chegar perto o suficiente do balcão. Então, primeiro gemo um “por favor”, depois um “a senhora pode me ajudar?” e assim por diante até ela resolver se levantar e pedir que eu a acompanhe.
Vou sendo conduzida pela secretária à sala do predador; o caminho passa novamente pelo mar de olhares ao qual eu não desejava voltar tão cedo. Enquanto sou escoltada até a outra margem, sinto uma lufada de vento quente como o inferno passar por entre minhas pernas. Logo a identifico: é a baforada de centenas de focinhos ao meu redor. Ao faro deles, fluido algum escapa. Tento me enfetear dentro de minha placenta psicológica, mas de que adianta? Nada tornará meu cheiro menos explícito ou minha carne menos suculenta, ainda mais para lupinos desta espécie. Homens-açougue.
Enfim, chegamos à sala do meu destinatário. É ampla, mas a mobília se resume a uma escrivaninha e, naturalmente, um sofá. Não há esconderijos ou armas improvisadas em potencial. A secretária nos deixa a sós e se retira. Ouço o barulho da porta se fechando atrás de mim e, em seguida, um som similar ao de uma chave de ferro penetrando na fechadura e sendo girada duas vezes. Tudo bem.
Já sei o que preciso fazer, já me odeio e já quero morrer por antecipação.
O predador puxa uma cadeira e me pede para sentar. Não estou muito habituada a essa cordialidade televisiva, mas aceito a máscara de submissa e mergulho de cabeça no que talvez seja meu primeiro papel profissional. Dor.
Conversamos por alguns minutos, intercalando comentários genéricos sobre assuntos frívolos com longas pausas, durante as quais pouco ouço além do ranger dos meus dentes de dentro. Tento interromper essas pausas o mais rápido possível, antes que o silêncio me mate de vergonha, mas é inútil: ele sabe quando me pegar desprevenida. Mal começamos a nos conhecer – por falta de termo melhor – e ele já me manipula com uma desenvoltura de fazer inveja a qualquer titereiro. A cada segundo fico mais e mais boneca.
Uma hora, inevitavelmente, ele resolve ir ao ponto. Pergunta se sei por que estou aqui, respondo que sim. Pergunta se estou ciente do que ganharei com isso, respondo que sim. Pergunta se sei a quais consequências estou sujeita caso conte algo a alguém, respondo que sim. Pergunta se podemos começar, respondo que sim.
Ele devia ter perguntado se estou pronta.
Eu responderia que não.
O que vem depois é uma sequência de clichês. Sei todos eles de cor, mas só agora percebo que na prática eles têm um impacto emocional muito mais forte. Desculpe, não tenho estômago para narrar essa parte da história; o que tinha, gastei para sobreviver a ela. Serei obrigada a deixar aqui uma lacuna, e você, a usar a própria imaginação para preenchê-la, se julgar necessário. Conto com sua compreensão.
Fade out.
Eventualmente, tomado por doses iguais de cansaço e satisfação, ele faz a gentileza de me largar. Enquanto ele me dá as costas e vai se vestir, permaneço inerte, jogada no sofá, rasgada em todos os sentidos possíveis, refletindo sobre o que era e sobre o que sou agora que fiz o que fiz: uma transação. O pesadelo é a moeda de troca no mercado dos sonhos, e como não tenho privilégios de cliente antiga, acabo de desembolsar um para adquirir o meu. Agora, se tudo correr como não há razão para não correr – afinal, de barriga cheia qualquer predador é dócil –, estou devidamente encaminhada. Daqui pra frente, é só sorrisos.
Por fora.
7/22/2011
...
Eu sugiro:
"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: chato."
Ou ainda:
"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: podre."
Mas aí depende do meu humor.
7/18/2011
Vai doer.
Pode cuidar da saúde, se exercitar, só respirar o ar do campo.
Pode fazer um seguro de vida e ir ao médico toda semana.
Pode criar anticorpos pra toda doença, até AIDS e câncer.
Pode criar estratégias, pensar dias, meses, anos adiante.
Pode evitar armadilhas, ser mais esperto, não ser feito de besta.
Pode continuar virgem, nunca ter um filho, privar-se de orgasmos.
Pode fugir da amizade, do amor e dos riscos que essas coisas trazem.
Pode fazer sacrifícios, fugir dos perigos, fingir que não vive.
Pode se trancar no quarto e cobrir a cabeça com mil travesseiros.
Pode ficar deitado, esperando expirar seu prazo de validade.
Pode tentar o que bem entender, seja negação, súplica ou luta.
Mesmo que tenha que ser
Só na hora de morrer,
Não há lepra, anestésico ou Deus que te salve.
Cedo ou tarde, vai doer.
3/07/2011
1/16/2011
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1/13/2011
Manual
Besta, eu.
Não é erotomania, no máximo uma mania de perseguição gostosa de sentir. Todo mundo olha torto pra mim, menos ela; acho que é por isso que nossos olhares se encontram com tanta frequência. A pontaria dos olhos dela é melhor que a dos olhos dos outros. Ela é melhor que os outros.
Falando em olhos, ela mantém os meus bem abertos à noite. Como faz isso? Existindo. Não é todo mundo que consegue.
Ela existe em dois lugares, aliás. E isso, menos gente ainda consegue. Porque a minha imaginação e a realidade são imiscíveis, sabe? Ela é a exceção, o corpo estranho, a intrusa aqui nesse mundo de cima. Imune ao meu filtro, sei lá como. Mas eu não reclamo. Ela deixa o ambiente mais agradável, até.
Às vezes eu até consigo controlá-la. Só de leve, mas consigo. Faço ela olhar nos meus olhos mais vezes que de costume.
E quando tenho sorte, ela resolve bancar a professora. Tenta me ensinar a manusear sua contraparte prática, apesar de eu nem saber se um dia vou ter um exemplar em mãos. Com ela, aprendo com antecedência que cada braço tem a posição correta de encaixe, que saliva serve como cola e que o botão de ligar/desligar não existe. Viro profissional.
Mas continuo besta.
26/05/2010 ou 10/08/2010, não sei. Mais provável que seja a primeira data, mas o Windows me diz que é a segunda.
Música relacionada: eu, se eu fosse música. Mas como não sou, Incubus - Agoraphobia.mp3