8/06/2013

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Prefácio:
Leia o texto / em voz alta, / em blocos de / quatro em quatro / sílabas, e / pondo sempre / força extra / na terceira.
Do contrário, / perde a graça.



Ergo o braço, puxo a corda. Um barulho, feito o silvo de um demônio, toma conta dos ouvidos dos sentados, dos em pé, do cobrador, do motorista. Tudo para; só a porta continua em movimento, mas um outro movimento, mezzo giro, mezzo dobra, pra sair do meu caminho. Com um salto, venço a escada, aterrisso na calçada. Estou fora do transporte coletivo. Minha casa mais à frente – a cem metros, cento e vinte, cento e pouco. Tudo escuro, breu danado, nem os postes funcionam nessa rua. Madrugada não é hora de voltar a pé pra casa, mas nem ligo; que bandido vai querer mexer comigo? Minhas roupas são surradas, desbotadas; minha coxa não ostenta nem volume de carteira nem de iPhone. Mas divago.
Vou andando rua abaixo. Mão esquerda jaz no bolso; mão direita faz um gancho com dois dedos – quase roxos, tal o peso da mochila que carregam. Dentro dela, só cadernos e um estojo. Mas, uma vez mais, divago.
De repente, vejo um vulto do outro lado, se movendo a passos longos, apressados. Sinto cheiro de suor e vibrações de pele tensas. Cada passo que esse vulto dá no escuro diz bem alto, mas bem alto, quase aos gritos: DESESPERO. Sigo o vulto; a princípio com os olhos, só os olhos. Nesse escuro, mesmo nele, dá pra ver que esse contorno é feminino. Bem suave, bem moldado, bem dotado, bem meu tipo.
Que beleza.

Sorrateiro, cruzo a faixa de pedestres, com cuidado pra deixar meus passos surdos, delicados, como a sola da sandália de algum anjo. Fico atento a cada espasmo muscular da moça à frente (sim, da moça), me esbaldando – quase num pequeno orgasmo – por saber, por ter certeza que ela não me viu ainda. Chego perto, paro um pouco, ela se a fasta, chego perto, paro um pouco, ela se afasta. Fico nesse vai-e-vem cadenciado por dez metros, quinze metros, vinte metros, poucos metros. Minha mente, embora alerta, se diverte divagando mais que nunca. Sim, divago.
Sim, divago, e dessa vez é voluntário.
Quem é ela? Pra que serve? Quais histórias ela rende? Que aventura vou viver à custa dela? Que segredos ela guarda? De repente pode ser uma vampira, e eu que sou o perseguido nessa história. Pode ser que eu tenha sangue do melhor e do mais raro. Pode ser que eu seja a janta e ela esteja à minha espreita, se fazendo de pedestre distraída só pra ver se eu sou esperto e tento a fuga antes do bote inevitável. Ou ainda, vai saber se ela não veio de um planeta bem distante? De um planeta bem bizarro, onde as pessoas se parecem com  terráqueos mas respiram com as unhas, têm um par de nadadeiras escondido em algum canto, soltam laser colorido pelo umbigo, falam línguas que não usam consoantes, se embebedam com petróleo, gargarejam cianureto e aprenderam teleporte pra explorar os outros mundos e achar graça nos costumes de outras raças, todas elas primitivas aos seus olhos. Vinte olhos.
É, divago.
Ou será que não divago?
Minha casa se aproxima, as costas dela se aproximam. Já pressinto que delícia vai ser quando eu colocar a mão no ombro da mulher e disser “oi” ou qualquer coisa desse tipo. Imagina o coração acelerando, de tal forma que as batidas viram rufo de tambor debaixo d’água.
Vai ser foda.
Já está quase no momento do contato, mas ainda penso, penso em mil maneiras de essa história ter seu rumo. Por exemplo (e um exemplo até bastante realista), imagina se ela pensa se tratar de algum tarado? Poucas coisas são tão lindas e tão feias quanto essa: o prelúdio de um estupro? Aliás, se quer saber, por mais que o antes me entretenha muito mais do que o durante, de repente eu posso até lhe estuprar mesmo. Só depende do quão fortes são os tapas que eu levar, do quão agudos são os gritos e os pedidos, os perdidos, de socorro. Qualquer coisa, se preciso, tem um beco abandonado a três esquinas de distância de onde eu moro. Não divago, isso é fato.
Eis que a vítima se afasta – pois, imerso em pensamentos, acabei por vacilar e comecei a caminhar mais devagar do que devia. Dou três saltos pra me pôr de volta ao posto de vigia: outra vez, as costas dela ao meu alcance; ao alcance dos meus braços. Quer saber? Já está na hora. Vamos ver no que vai dar essa novela. Vou pegar pelo pescoço; que se dane. Se ela grita, eu dou-lhe um soco, um tapa, um beijo, qualquer coisa. Vamos lá. Ou vai ou racha.
Não, não vamos.
Um segundo, talvez menos, antes disso, bem na hora mais imprópria, ela fez um ligeiríssimo desvio, entrou num beco, enfiou a mão na bolsa, vaculhou e tateou até seu tato deparar-se com a chave. Sim, a chave. De uma porta que ela abriu num fragmento desprezível de segundo, se enfiou pra dentro de sei lá pra onde a porta leva, segurou a maçaneta e, com um puta de um puxão, um safanão, fechou a porta. O barulho, quem dormia nas residências vizinhas, depois dele, ou se acordou ou enfartou do miocárdio. Tudo isso, essa novela, esse compêndio de pequenos movimentos que podia ser roteiro de algum curta por aí? Foi tudo assim, piscou-passou, foi num instante, só um puto de um instante – enquanto eu, burro que só eu, me distraía. Divagava.
Mas que merda de anticlímax, não concorda? E o pior é que a história, a essa altura, nem bem tinha começado. Bem, agora não sou louco de tocar a campainha dessa casa onde a tal moça se enfiou com tanta pressa; ademais, o que eu diria, mesmo que, por um acaso, conseguisse ver de novo a dita-cuja?
“Oi, eu tava te seguindo e não deu tempo de comer seu cu”?
“Será que você pode dar mais uma caminhada pelo bairro, pra eu brincar de adivinhar o que diabos você tem (ou pode ter) de interessante, além da bela silhueta”?
“Oi, quer ser o meu mistério?”?
Não, não rola. Essa história já está morta. Sim, falhei, e enquanto volto, a passos lentos
e frustrados, para casa, só consigo pensar em cinco palavras, que resumem muito bem o que essa noite me ensinou sobre o Universo, a vida, o amor e mais trocentas outras coisas:
“Mas que puta mundo chato.”


A ideia existe há uns 30 bilhões de anos, mas o texto é de 11/07/2013.
Música relacionada: The Faint - The Geeks Were Right.mp3

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