Chegamos.
Durante uma primeira olhada ao redor, o que menos enxergo são câmeras. Até vejo algumas, mas são em número bem menor que nos meus sonhos de antigamente. Prefiro acreditar que a realidade é uma adaptação não muito literal deles, e não o contrário. E até já sei qual a diferença crucial entre as duas versões da história: na real, eu não vou mais interpretar uma menininha deslumbrada com flashes, beijos técnicos e cachês. Hora de trilhar novos caminhos na minha carreira, se eu quiser que ela comece – vai doer, vai ser nojento, vai me traumatizar e me encher de desgosto pela vida, eu sei, mas pelo menos eu não vou cair no ostracismo.
Embora as câmeras sejam escassas, ao meu redor há um verdadeiro oceano de figurantes. Não devem ter sido bem treinados, pois todos olham para mim sem a menor discrição, como se cada um enquadrasse um centímetro quadrado da minha pele. Minha naturalidade, tantas vezes ensaiada, se esvanece perante esse excesso de foco. Minhas bochechas perdem a coloração sépia, que também ensaiei, e assumem o tom de vermelho mais frágil e desprotegido possível. Essa mudança de cor também foi treinada, mas eu pretendia usá-la numa cena posterior a essa, quando seria mais adequada. Sem alternativa, cubro a face com as mãos e corro em busca de um ponto cego.
Deixando os figurantes para trás, entro numa sala qualquer. Está relativamente vazia de gente, mas lotada de objetos de cena, todos grandes, grossos, assustadores ou tudo isso ao mesmo tempo. Aprendo: em Hollywood e derivados, absolutamente tudo é masturbatório. Tenho me lembrar disso quando for escrever o argumento dos meus próximos sonhos, se é que ainda terei algum.
Reparo que há um balcão à minha esquerda, colado na parede oposta à escada; atrás dele está a única peça humana na composição dessa mise en scène grotesca. A secretária do chefe da matilha, uma senhora de meia-idade, de aparência inofensiva – aliás, tão inofensiva que destoa do cenário ao redor como um psicanalista num confessionário. Parcamente camuflada atrás de uma ampla folha de jornal ostentada como um escudo de papel reciclável, ela filma todos os meus movimentos com o olhar, sem piscar, enquanto atravesso a sala em plano-sequência até chegar perto o suficiente do balcão. Então, primeiro gemo um “por favor”, depois um “a senhora pode me ajudar?” e assim por diante até ela resolver se levantar e pedir que eu a acompanhe.
Vou sendo conduzida pela secretária à sala do predador; o caminho passa novamente pelo mar de olhares ao qual eu não desejava voltar tão cedo. Enquanto sou escoltada até a outra margem, sinto uma lufada de vento quente como o inferno passar por entre minhas pernas. Logo a identifico: é a baforada de centenas de focinhos ao meu redor. Ao faro deles, fluido algum escapa. Tento me enfetear dentro de minha placenta psicológica, mas de que adianta? Nada tornará meu cheiro menos explícito ou minha carne menos suculenta, ainda mais para lupinos desta espécie. Homens-açougue.
Enfim, chegamos à sala do meu destinatário. É ampla, mas a mobília se resume a uma escrivaninha e, naturalmente, um sofá. Não há esconderijos ou armas improvisadas em potencial. A secretária nos deixa a sós e se retira. Ouço o barulho da porta se fechando atrás de mim e, em seguida, um som similar ao de uma chave de ferro penetrando na fechadura e sendo girada duas vezes. Tudo bem.
Já sei o que preciso fazer, já me odeio e já quero morrer por antecipação.
O predador puxa uma cadeira e me pede para sentar. Não estou muito habituada a essa cordialidade televisiva, mas aceito a máscara de submissa e mergulho de cabeça no que talvez seja meu primeiro papel profissional. Dor.
Conversamos por alguns minutos, intercalando comentários genéricos sobre assuntos frívolos com longas pausas, durante as quais pouco ouço além do ranger dos meus dentes de dentro. Tento interromper essas pausas o mais rápido possível, antes que o silêncio me mate de vergonha, mas é inútil: ele sabe quando me pegar desprevenida. Mal começamos a nos conhecer – por falta de termo melhor – e ele já me manipula com uma desenvoltura de fazer inveja a qualquer titereiro. A cada segundo fico mais e mais boneca.
Uma hora, inevitavelmente, ele resolve ir ao ponto. Pergunta se sei por que estou aqui, respondo que sim. Pergunta se estou ciente do que ganharei com isso, respondo que sim. Pergunta se sei a quais consequências estou sujeita caso conte algo a alguém, respondo que sim. Pergunta se podemos começar, respondo que sim.
Ele devia ter perguntado se estou pronta.
Eu responderia que não.
O que vem depois é uma sequência de clichês. Sei todos eles de cor, mas só agora percebo que na prática eles têm um impacto emocional muito mais forte. Desculpe, não tenho estômago para narrar essa parte da história; o que tinha, gastei para sobreviver a ela. Serei obrigada a deixar aqui uma lacuna, e você, a usar a própria imaginação para preenchê-la, se julgar necessário. Conto com sua compreensão.
Fade out.
Eventualmente, tomado por doses iguais de cansaço e satisfação, ele faz a gentileza de me largar. Enquanto ele me dá as costas e vai se vestir, permaneço inerte, jogada no sofá, rasgada em todos os sentidos possíveis, refletindo sobre o que era e sobre o que sou agora que fiz o que fiz: uma transação. O pesadelo é a moeda de troca no mercado dos sonhos, e como não tenho privilégios de cliente antiga, acabo de desembolsar um para adquirir o meu. Agora, se tudo correr como não há razão para não correr – afinal, de barriga cheia qualquer predador é dócil –, estou devidamente encaminhada. Daqui pra frente, é só sorrisos.
Por fora.
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